Fundamentação teórica · Aconselhamento psicológico

Terapia Baseada em Processos,
Terapia Breve Focada em Soluções
e Aconselhamento Psicológico

fundamentos e articulação funcional

Jordan Carlos Ferreira Gomes
Jesus Gabriel Lacerda Silva

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ac.jordancarlos.com.br
O cenário

O aconselhamento trabalha com tempo limitado e demandas situacionais.

Por isso, ele exige:

Objetivos claros
Acompanhamento do progresso
Critérios de continuidade ou encaminhamento
A proposta

Três peças, três funções

Aconselhamento
Define o enquadre de ajuda e a natureza focal da intervenção.
PBT
Formula e seleciona processos de mudança.
SFBT
Constrói objetivos, reconhece exceções e organiza pequenos passos.

A aproximação é funcional: não é um protocolo híbrido validado nem uma nova escola.

A tese do artigo
Artigo teórico · Aconselhamento psicológico
Resumo
PBT, SFBT e aconselhamento
Este artigo apresenta uma fundamentação teórica que articula o aconselhamento psicológico, a Terapia Baseada em Processos (PBT) e a Terapia Breve Focada em Soluções (SFBT). Trata-se de estudo teórico, de natureza bibliográfica, que examina a origem, a visão de ser humano, a concepção ética e os principais conceitos de cada abordagem, bem como sua relação com o aconselhamento breve, tendo a Prática Baseada em Evidências como eixo transversal. A PBT é apresentada como estrutura de raciocínio clínico idiográfica e funcional, voltada à seleção de processos de mudança; a SFBT, como prática conversacional orientada ao futuro preferido, às exceções, às escalas e aos pequenos passos. Examinam-se, ainda, os limites dessa articulação, entre eles a necessidade de triagem, de avaliação de risco, de revisão contínua da formulação e de cautela diante das evidências disponíveis.
Tese central
Argumenta-se que a articulação entre ambas é funcional, e não um protocolo híbrido validado.
Compatibilidade
funcional.

Trechos do resumo e das considerações finais do artigo

Aconselhamento psicológico

Uma relação interpessoal de ajuda

Não oferece respostas prontas. Favorece uma compreensão mais clara da demanda e respostas compatíveis com o contexto da pessoa.

Forghieri (2007) · Scorsolini-Comin (2014)

Enquadre, triagem e encaminhamento

Acessível, mas com proteção

  • Finalidade do aconselhamento
  • Sigilo e suas exceções
  • Critérios de encaminhamento
  • Participação dos responsáveis, com crianças e adolescentes, quando cabível

Conselho Federal de Psicologia (2005)

Eixo transversal

Prática Baseada em Evidências

Evidências de pesquisa+ Perícia profissional+ Valores, cultura e preferências da pessoa

A intervenção breve funciona como uma hipótese de trabalho que precisa ser acompanhada.

Leonardi et al. (2024)

Terapia Baseada em Processos

A pergunta clínica muda

Antes
Qual protocolo é indicado para este transtorno?
→
PBT
Quais processos focalizar com esta pessoa, neste objetivo e neste contexto?

É uma estrutura de raciocínio clínico, não uma nova terapia.

Hofmann; Hayes (2019, 2024)

Por que essa reorientação

Revisão de escopo sobre processos de mudança desde 2007

684
processos descritos
778
estudos
32
agrupamentos

Hofmann et al. (2026)

PBT · De cada 100 processos investigados

O maior agrupamento: fatores comuns

20,6%
Cada marca = 1% dos processos investigados
● Fatores comuns · 20,6%● Demais agrupamentos · 79,4%

Fatores comuns incluem aliança terapêutica e processos colaborativos · Hofmann et al. (2026)

PBT · Visão de ser humano

A pessoa é única, em contexto e em movimento

Idiográfica
Médias de grupo não substituem a análise do indivíduo.
Contextual
O valor de um padrão depende das circunstâncias.
Dinâmica
Processos mudam de forma não linear ao longo do tempo.
Multinível
Níveis psicológico, biológico e sociocultural interagem.

Hofmann; Hayes (2019) · Hayes; Hofmann; Ciarrochi (2020) · Hayes et al. (2026)

PBT · Contexto

A função informa mais do que a forma

O mesmo comportamento, evitar uma situação, pode:

Proteger
diante de um risco real.
Restringir
mantendo uma esquiva que limita aprendizagem e participação social.

Hayes; Hofmann; Ciarrochi (2020)

PBT · Concepção ética

Sem código próprio, com o Código de Ética Profissional como referência

  • Competência científica: conhecer evidências, riscos e contraindicações.
  • Autonomia: metas construídas em conjunto com a pessoa.
  • Responsividade: sem mudança, revê-se a formulação, sem culpar uma suposta "resistência".

Pope (2020) · Melo; Moreno (2026)

PBT · Conceito central

Processo ≠ técnica

Técnica / procedimento
Ação observável do terapeuta.
Ex.: exposição, reestruturação cognitiva, perguntas de escala.
Processo de mudança
A relação funcional pela qual o procedimento modifica aspectos relevantes do funcionamento.

Aplicar a técnica como previsto não garante que o processo foi ativado.

Hofmann; Hayes; Lorscheid (2023) · Hofmann et al. (2026)

PBT · Ferramentas de análise

Da rede de problemas ao EEMM

Análise funcional
Antecedentes, respostas, consequências e contexto.
Redes
Nós e ciclos de feedback mostram como padrões se fortalecem entre si.
EEMM
Variação, seleção e retenção em afeto, cognição, atenção, motivação, self e comportamento. É um metamodelo, não um diagnóstico.

Hayes; Hofmann; Ciarrochi (2020) · Hofmann; Hayes (2024)

PBT no aconselhamento

Começar pelo caso mais simples

Indicadores simples, definidos com a pessoa e reavaliados a cada encontro, mostram se o processo-alvo está mudando.

Hayes et al. (2026) · Scorsolini-Comin (2014)

Terapia Breve Focada em Soluções

Brief Family Therapy Center, Milwaukee

Desenvolvida principalmente por Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e uma equipe interdisciplinar.

O foco vai para o futuro desejado, as exceções, os recursos e os pequenos passos, sem exigir uma investigação prolongada da origem do problema.

De Shazer (1985) · De Shazer et al. (1986) · De Jong; Berg (2013)

SFBT · Visão de ser humano

O cliente é especialista em sua própria vida

Concepção não deficitária: o sofrimento não apaga conhecimentos, relações e habilidades que podem apoiar a mudança.

Essa especialidade não substitui o conhecimento técnico do terapeuta.

De Jong; Berg (2013)

SFBT · Concepção ética

Postura de não-saber ≠ passividade

O que é
Suspender conclusões prematuras, manter curiosidade e usar a linguagem da própria pessoa.
O que não autoriza
Passividade diante de risco, violência, abuso, intoxicação ou sintomas graves.

Código de Ética Profissional do Psicólogo · Resolução CFP nº 10/2005

SFBT · Principais conceitos (1/2)

Para onde e o que já funciona

Futuro preferido
Como a vida estaria diferente se o atendimento fosse útil?
Pergunta do milagre
Esclarece metas por meio de sinais concretos. Não promete uma mudança mágica.
Exceções
Momentos em que o problema não ocorreu, foi menor ou foi manejado de outro modo.

De Shazer et al. (2007) · De Jong; Berg (2013) · Franklin et al. (2017)

SFBT · Principais conceitos (2/2)

Medir diferenças e construir juntos

Escalas de 0 a 10
Instrumentos conversacionais, não testes psicológicos. O que sustenta o número? Qual seria um pequeno avanço?
Perguntas de enfrentamento
Como você tem atravessado isso? O que impediu uma piora?
Coconstrução
Acompanhar as palavras do cliente, para que a conversa não vire uma sequência mecânica de perguntas.

Franklin et al. (2017, 2024) · Hong; Cooper; Franklin (2026)

SFBT · Na prática

A pergunta do milagre em ação

Role-play: "Miracle Question with Social Anxiety" · Dr. Todd Grande (YouTube) · abrir no YouTube
Clique fora do vídeo para voltar às setas.

SFBT · Evidências

Resultado favorável, com nuances

72
estudos e 489 tamanhos de efeito: resultado global favorável para problemas psicossociais
Vermeulen-Oskam et al. (2024)

Os efeitos foram menores diante de tratamento usual do que diante de ausência de tratamento.

25 revisões sistemáticas
Confiança variável entre desfechos · Żak; Pękala (2025)
SFBT · Limites de mensuração

Poucos instrumentos captam a mudança

3 de 11
instrumentos focados em solução sensíveis à mudança do cliente

Há poucos dados formais para autolesão (Jerome et al., 2024). A avaliação de risco não pode ser substituída.

Hong; Cooper; Franklin (2026)

Articulação

Contribuições diferentes, que se completam

PBT
O que precisa mudar, em qual contexto e por que esse alvo é relevante.
SFBT
Como a pessoa vai reconhecer a mudança, o que já funciona e qual é o próximo passo.

Os métodos são escolhidos pelos processos que modificam, não pela filiação teórica.

Hofmann; Hayes (2024)

Quadro 1 · Relação funcional entre PBT e SFBT
DimensãoPBTSFBTNo aconselhamento
PerguntaQuais processos mantêm ou favorecem a mudança?Qual futuro a pessoa deseja e que recursos já apontam nessa direção?Liga a formulação a uma direção concreta.
ObjetivoSelecionar alvos modificáveis e monitorar efeitos.Coconstruir metas observáveis e pequenos passos.Evita conselhos genéricos e análises sem direção.
AvaliaçãoAnálise funcional, rede, contexto, indicadores idiográficos.Escalas, diferenças, exceções, linguagem do cliente.Acompanha o progresso e orienta revisões.
TécnicasEscolhidas pela função e pela evidência.Futuro, exceção, escala, coping, recursos.A técnica é usada quando cumpre uma função identificada.
RelaçãoColaboração e formulação revisável.Cliente especialista e postura de não-saber.Preserva a autonomia e a responsabilidade técnica.

Fonte: elaboração própria do artigo, com base em Hofmann; Hayes (2019), Hayes; Hofmann; Ciarrochi (2020), De Shazer et al. (1986), De Jong; Berg (2013) e outros.

Na prática

Um ciclo, não uma receita

Hipóteseformulação (PBT) Açãopequeno passo (SFBT) Observaçãoo que melhorou? Revisãoo processo-alvo mudou? depois do enquadre e da triagem
Limites e cuidados

O que não se pode afirmar

  • Não existe um protocolo validado de "integração PBT-SFBT". Há compatibilidade funcional.
  • Processos demonstrados em médias de grupo precisam ser confirmados em cada pessoa.
  • Risco agudo, autolesão, violência ou sintomas graves exigem outros procedimentos e encaminhamento.
  • Se não houver progresso, revê-se o plano em vez de repetir as mesmas técnicas.

Hayes et al. (2026) · Hofmann et al. (2026)

Simulação didática · caso fictício

Marina, 22 anos

Faltam três semanas para uma apresentação importante diante de avaliadores. Ela sente ansiedade intensa, tem medo de esquecer o conteúdo e vontade de evitar.

Triagem: sem relato de risco agudo ou autolesão.

Objetivo: ensaiar e realizar a apresentação mesmo com algum nível de ansiedade.

Apêndice A · finalidade didática, não substitui avaliação clínica nem supervisão

Formulação inicial pela PBT

O ciclo que mantém a ameaça

Prevê que vai falhar Ansiedade aumenta Interrompe o ensaio, revisaslides, busca garantias Alívio imediato o alívio reforça a esquiva
Exceção, escala e revisão

Do 4 ao 4,5

ExceçãoNuma apresentação em grupo, ela ensaiou em voz alta com amigas, começou por uma parte curta e percebeu que dominava o conteúdo.

012344,55678910

Pequeno passoEnsaiar 5 minutos em voz alta, sem parar para editar os slides.

RevisãoDepois de uma crítica, ela passou 2 horas editando slides. Isso revelou uma regra de perfeição: "preciso estar completamente pronta antes de falar".

Considerações finais

Compatibilidade funcional,
não equivalência teórica

PBT: raciocínio sobre processos e revisão da formulação. SFBT: objetivos, exceções, escalas e pequenos passos.

Próximo passo: estudos empíricos com indicadores idiográficos, sempre com triagem, avaliação de risco e encaminhamento.

Baixar o artigo completo (PDF)

Principais referências: Hofmann; Hayes (2019, 2024) · Hayes et al. (2026) · De Shazer et al. (1986) · De Jong; Berg (2013) · Vermeulen-Oskam et al. (2024) · Leonardi et al. (2024)

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